sexta-feira, novembro 24, 2006

Exatos

Maria Helena mergulhou fundo no olhar de Luisa. As duas ali, tete a tete, marchando lentamente para o próximo passo, o que seria um passo no escuro. Quarenta anos não são vinte, quarenta pesam, as coisas mudam, pensou. Sim, quarenta anos são os senhores do jogo, dos que mandam, desmandam e remandam. Ao menos o eram com Maria Helena.
Eram duas mulheres vividas mergulhadas no próprio subconsciente, atônitas à realidade. E isso mudava a direção das coisas: eram duas mulheres vividas - e não viventes - o que lhes causava certa vergonha por estar ali. Luisa só tinha uns livros, para mergulhar a cabeça enquanto não trabalhava e esquecer os problemas e faltas. Isso, de certa forma, era uma espécie de autonomia, a sua autonomia. Maria Helena, coitada, não tinha tempo para enfiar a cabeça em lugar nenhum, sua única autonomia era o pensar. Era casada, mas preferia nunca ter cometido tal erro.
- Pois é, Lui, quarenta anos têm o peso de blocos de chumbo... – Maria Helena retomou a conversa que ficara pelo meio.
Luisa riu baixinho, para seu íntimo. Terminaram o lanche, com suas milhares de calorias de lanche de fast-food, e continuaram a andança pelo shopping center. Provaram isso ou aquilo, perderam outra vez o rumo da conversa. Mas havia em seus olhares um complexo antagonismo, o que, na verdade, era extrema compreensão. Duas mulheres no mesmo provador, diante de um espelho impecavelmente limpo, sob a luz branca típica de um provador daqueles, que tem o estranho poder de deixar as pessoas mais enfadadas do que de fato são.
Maria Helena olhou em seu reflexo a vaguidão de sua face, com certo desprezo. Sentiu vertigem.
- São quarenta anos, Luisa. Me ajuda, me ajuda a caminhar...
Só então Luisa sentiu o que eram quarenta anos para Maria Helena. Não era a idade. Definitivamente, não o era. Era o peso dos quarenta anos passados corridos, das lacunas, do casamento que não vingara. Ah, isso pesava muito mais do que meros quarenta anos...
Eram duas amigas diante de um espelho impecavelmente limpo e de uma vida passada a vistas grossas. Luisa tomou a mão de Maria Helena, num semi-sorriso, num complexo antagonismo que as atraía e lhes dava certa esperança sobre o mundo.
- Eu estou aqui, Marilê.
E este gesto tinha o peso exato da liberdade...

sábado, novembro 11, 2006



Tenho sede
Tenho fome
De um amor
De um sorriso
E de uns versos
De melodia
Cantados
Por meu amor
Partindo
E me deixando
Fingindo mil viagens
Meu coração
Bate parado
Na alma do meu amor...

sexta-feira, novembro 03, 2006

PROCURA-SE

Procuro alguém
Sem o qual eu meio-exista
Que me sorria nas tardes cinzas
E em dia triste me abrace.

Procuro alguém
Que me ponha apelido
Diga que sonha, às vezes, comigo
Me telefone na madruga pra ver a lua.

Procuro alguém
Que converse com o olhar
E me faça de súbito sorrir
Apenas com um de seus sorrisos.

Procuro alguém
Que me dê beijo na testa
Ao emprestar seu ombro à minha cabeça
E que aceite os meus versos com carinho.

Procuro alguém
Que receba meus sorrisos
Esteja livre pra abraço a qualquer hora
E que caiba dentro do meu coração.

Se alguém quiser
Por favor, entre em contato
Dê um sorriso com o pensamento em mim
E, onde estiver, eu recebo o seu recado.