segunda-feira, julho 31, 2006

Gina

Pode até parecer estranho Gina dizer uma coisa como estas, mas, neste momento de solitude aguda, ela só queria estar nos braços do seu poeta. Não pela solidão, isso nunca. É que Gina nunca declarou seus sentimentos em público. E, agora, está jantando com sua irmã (seu grande público, no momento), confessando-lhe seus mais secretos desejos. Sua irmã apenas a escuta, como se Gina fosse a única pessoa do mundo. Tagarela que sempre foi, Gina só joga palavras e mais palavras sobre a coitada.
O jantar já dura duas horas. Sua irmã deseja anciosamente saber quem é o tal poeta de que a tanto tempo Gina fala. A verdade é que nem poeta ele é. Colocou este apelido nele porque ama a vida e, mesmo sem saber, joga o "jogo de Pollyana", é sensível e sonhador. "Meu poeta". Os pronomes possessivos sempre fizeram parte de sua vida como atores coadjuvantes, mas, admitindo, nem "seu" ele é. Seu nada, nada seu. E, para ser ainda mais sincera, o seu poeta sequer sonha seus sonhos com ela.

A esta altura, Gina já está chorando. Oh, dor infeliz esta que rasga seu peito! Sua irmã tenta, inutilmente, lha consolar. Contudo, tudo o que ela pode fazer por Gina neste momento é escutar seu desabafo, como uma amiga. Impotente, mas muito útil. Agora, Gina não pensa em mais nada que não seja o olhar distraído do seu poeta. E lhe parece triste estar ali, tão longe dele.
Sua irmã pergunta novamente o nome do seu primeiro amor. Isso mesmo, primeiro amor! Bem, seu nome Gina não revelará, pois ele não imagina que ela o ame. Não imagina que em algum canto da cidade um coração palpita mais forte por ele, esquecendo até que considerava ridículo ser piegas. Não sabe, ao menos, o quanto seus transitórios sorrisos a alegram.
Agora, os pratos estão lavados, sua irmã dorme e Gina escreve na solitude de seu quarto, onde guarda uma foto do seu poeta a sete chaves. Seus olhos sorriem, pois são espelhos de sua alma. E na alma residem nossos verdadeiros sentimentos. Por enquanto, Gina anda morrendo, ou melhor, vivendo de amor eterno. E, mesmo que seu poeta nunca venha a amá-la, lá no futuro Gina terá o privilégio de dizer que amou verdadeiramente, tanto que este amor resistiu ao não-amor. E no seu túmulo, espera que me um futuro bem mais distante, estas palavras servirão como epitáfio:
ELA AMOU, ACIMA DE TUDO.

Amanda Julieta, a primeira crônica.

domingo, julho 30, 2006

Café com PãOESIA*


Tarde boa de francês deslavado e intocáveis canções. Maguinifique. Genereuse. Duas meninas sentadas na cozinha. Café com pÃoesia. Duas meninas e conversa d'uma vida. Duas meninas crescidas que não deixaram e jamais deixarão de ser meninas. Tarde boa feita de sorriros saudosos. Tempo passado disperso nos labirintos do presente. Presente d'alma que vai no céu d'um azul tão profundo que nos tira a razão. Presente-sorriso, presente-palavra, presente-olhar.
É quando percebemos que a vida é realmente feita de pequenos momentos. Paulatinamente. Inocentemente. A vida que nos cai incoerente, com suas sem-razões, agora é simples, tênue. A vida se constrói em nossas mãos como em um milhão de anos. Prosa-viva. Proesia. E vejo tudo isso numa corriqueira conversa de cozinha.

Amanda Julieta.
(*) Da cozinha de uma grande amiga podem surgir coisas maravilhosas.



Depois da entrevista, a crônica *

Estávamos, ela e eu, no jardim inexplorado de sombras e luz. Estávamos lá, entre flores estilhaçadas, inanimadas, inexistentes. Estávamos lá, sem raios de sol - ela, "bicho de estúdio"; eu, condor. Era o jardim de cactus, talhado para o mistério absurdo de um olhar inaudito.

De repente, os olhos. Os olhos - de um marrom intransponível. De repente, seu olhar a se perder por entre as luzes do onipotente jardim de cactus. Lá não venta, não chove, não irradia. Pensávamos, nós duas, no mar de Itapoan. Pensávamos, nós duas, nos caminhos de Iemanjá. E nas sendas que nos resgatariam do jardim.O seu olhar faria ventar. E ventou no jardim de cactus, onde a onipotência passou a ser nada mais que um capricho. Estilhaçado. Impotente. Mútuo.

E ventaria pela noite inquieta, não fosse o mar de Itapoan. Sábio. Belo. Fatal. Seu olhar a me fuzilar. Fatidicamente. Tenuemente. Audaciosamente. Seu olhar era ventania. Sim, ventania - a varrer gentil o resto de poeira de nossas mentes. E ele faria ventar dias e noites...Estávamos, Katia e eu, no jardim de cactus. Débil jardim. Sôfrego jardim. Talhado para o mistério absurdo de um olhar inaudito.

(*) Depois de uma entrevista com Katia Guzzo.