Gina
O jantar já dura duas horas. Sua irmã deseja anciosamente saber quem é o tal poeta de que a tanto tempo Gina fala. A verdade é que nem poeta ele é. Colocou este apelido nele porque ama a vida e, mesmo sem saber, joga o "jogo de Pollyana", é sensível e sonhador. "Meu poeta". Os pronomes possessivos sempre fizeram parte de sua vida como atores coadjuvantes, mas, admitindo, nem "seu" ele é. Seu nada, nada seu. E, para ser ainda mais sincera, o seu poeta sequer sonha seus sonhos com ela.
A esta altura, Gina já está chorando. Oh, dor infeliz esta que rasga seu peito! Sua irmã tenta, inutilmente, lha consolar. Contudo, tudo o que ela pode fazer por Gina neste momento é escutar seu desabafo, como uma amiga. Impotente, mas muito útil. Agora, Gina não pensa em mais nada que não seja o olhar distraído do seu poeta. E lhe parece triste estar ali, tão longe dele.
Sua irmã pergunta novamente o nome do seu primeiro amor. Isso mesmo, primeiro amor! Bem, seu nome Gina não revelará, pois ele não imagina que ela o ame. Não imagina que em algum canto da cidade um coração palpita mais forte por ele, esquecendo até que considerava ridículo ser piegas. Não sabe, ao menos, o quanto seus transitórios sorrisos a alegram.
Agora, os pratos estão lavados, sua irmã dorme e Gina escreve na solitude de seu quarto, onde guarda uma foto do seu poeta a sete chaves. Seus olhos sorriem, pois são espelhos de sua alma. E na alma residem nossos verdadeiros sentimentos. Por enquanto, Gina anda morrendo, ou melhor, vivendo de amor eterno. E, mesmo que seu poeta nunca venha a amá-la, lá no futuro Gina terá o privilégio de dizer que amou verdadeiramente, tanto que este amor resistiu ao não-amor. E no seu túmulo, espera que me um futuro bem mais distante, estas palavras servirão como epitáfio:
ELA AMOU, ACIMA DE TUDO.
Amanda Julieta, a primeira crônica.
