Exatos
Maria Helena mergulhou fundo no olhar de Luisa. As duas ali, tete a tete, marchando lentamente para o próximo passo, o que seria um passo no escuro. Quarenta anos não são vinte, quarenta pesam, as coisas mudam, pensou. Sim, quarenta anos são os senhores do jogo, dos que mandam, desmandam e remandam. Ao menos o eram com Maria Helena.
Eram duas mulheres vividas mergulhadas no próprio subconsciente, atônitas à realidade. E isso mudava a direção das coisas: eram duas mulheres vividas - e não viventes - o que lhes causava certa vergonha por estar ali. Luisa só tinha uns livros, para mergulhar a cabeça enquanto não trabalhava e esquecer os problemas e faltas. Isso, de certa forma, era uma espécie de autonomia, a sua autonomia. Maria Helena, coitada, não tinha tempo para enfiar a cabeça em lugar nenhum, sua única autonomia era o pensar. Era casada, mas preferia nunca ter cometido tal erro.
- Pois é, Lui, quarenta anos têm o peso de blocos de chumbo... – Maria Helena retomou a conversa que ficara pelo meio.
Luisa riu baixinho, para seu íntimo. Terminaram o lanche, com suas milhares de calorias de lanche de fast-food, e continuaram a andança pelo shopping center. Provaram isso ou aquilo, perderam outra vez o rumo da conversa. Mas havia em seus olhares um complexo antagonismo, o que, na verdade, era extrema compreensão. Duas mulheres no mesmo provador, diante de um espelho impecavelmente limpo, sob a luz branca típica de um provador daqueles, que tem o estranho poder de deixar as pessoas mais enfadadas do que de fato são.
Maria Helena olhou em seu reflexo a vaguidão de sua face, com certo desprezo. Sentiu vertigem.
- São quarenta anos, Luisa. Me ajuda, me ajuda a caminhar...
Só então Luisa sentiu o que eram quarenta anos para Maria Helena. Não era a idade. Definitivamente, não o era. Era o peso dos quarenta anos passados corridos, das lacunas, do casamento que não vingara. Ah, isso pesava muito mais do que meros quarenta anos...
Eram duas amigas diante de um espelho impecavelmente limpo e de uma vida passada a vistas grossas. Luisa tomou a mão de Maria Helena, num semi-sorriso, num complexo antagonismo que as atraía e lhes dava certa esperança sobre o mundo.
- Eu estou aqui, Marilê.
E este gesto tinha o peso exato da liberdade...
Eram duas mulheres vividas mergulhadas no próprio subconsciente, atônitas à realidade. E isso mudava a direção das coisas: eram duas mulheres vividas - e não viventes - o que lhes causava certa vergonha por estar ali. Luisa só tinha uns livros, para mergulhar a cabeça enquanto não trabalhava e esquecer os problemas e faltas. Isso, de certa forma, era uma espécie de autonomia, a sua autonomia. Maria Helena, coitada, não tinha tempo para enfiar a cabeça em lugar nenhum, sua única autonomia era o pensar. Era casada, mas preferia nunca ter cometido tal erro.
- Pois é, Lui, quarenta anos têm o peso de blocos de chumbo... – Maria Helena retomou a conversa que ficara pelo meio.
Luisa riu baixinho, para seu íntimo. Terminaram o lanche, com suas milhares de calorias de lanche de fast-food, e continuaram a andança pelo shopping center. Provaram isso ou aquilo, perderam outra vez o rumo da conversa. Mas havia em seus olhares um complexo antagonismo, o que, na verdade, era extrema compreensão. Duas mulheres no mesmo provador, diante de um espelho impecavelmente limpo, sob a luz branca típica de um provador daqueles, que tem o estranho poder de deixar as pessoas mais enfadadas do que de fato são.
Maria Helena olhou em seu reflexo a vaguidão de sua face, com certo desprezo. Sentiu vertigem.
- São quarenta anos, Luisa. Me ajuda, me ajuda a caminhar...
Só então Luisa sentiu o que eram quarenta anos para Maria Helena. Não era a idade. Definitivamente, não o era. Era o peso dos quarenta anos passados corridos, das lacunas, do casamento que não vingara. Ah, isso pesava muito mais do que meros quarenta anos...
Eram duas amigas diante de um espelho impecavelmente limpo e de uma vida passada a vistas grossas. Luisa tomou a mão de Maria Helena, num semi-sorriso, num complexo antagonismo que as atraía e lhes dava certa esperança sobre o mundo.
- Eu estou aqui, Marilê.
E este gesto tinha o peso exato da liberdade...

1 Comments:
Meu chuchu,
que houve?
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