domingo, julho 30, 2006

Depois da entrevista, a crônica *

Estávamos, ela e eu, no jardim inexplorado de sombras e luz. Estávamos lá, entre flores estilhaçadas, inanimadas, inexistentes. Estávamos lá, sem raios de sol - ela, "bicho de estúdio"; eu, condor. Era o jardim de cactus, talhado para o mistério absurdo de um olhar inaudito.

De repente, os olhos. Os olhos - de um marrom intransponível. De repente, seu olhar a se perder por entre as luzes do onipotente jardim de cactus. Lá não venta, não chove, não irradia. Pensávamos, nós duas, no mar de Itapoan. Pensávamos, nós duas, nos caminhos de Iemanjá. E nas sendas que nos resgatariam do jardim.O seu olhar faria ventar. E ventou no jardim de cactus, onde a onipotência passou a ser nada mais que um capricho. Estilhaçado. Impotente. Mútuo.

E ventaria pela noite inquieta, não fosse o mar de Itapoan. Sábio. Belo. Fatal. Seu olhar a me fuzilar. Fatidicamente. Tenuemente. Audaciosamente. Seu olhar era ventania. Sim, ventania - a varrer gentil o resto de poeira de nossas mentes. E ele faria ventar dias e noites...Estávamos, Katia e eu, no jardim de cactus. Débil jardim. Sôfrego jardim. Talhado para o mistério absurdo de um olhar inaudito.

(*) Depois de uma entrevista com Katia Guzzo.